Em dezembro, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais faz aniversário com mais de 2 mil unidades em todo o país e 250 mil alunos

No ano em que completa seis décadas, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) tem muitas conquistas a serem elencadas e uma relação de dificuldades ainda enfrentadas diariamente para garantir que crianças e idosos com deficiência intelectual tenham, de fato, direito à cidadania. Em todo o país, a entidade filantrópica conta com 2.131 escolas e atende cerca de 250 mil alunos, conforme levantamento da Federação Nacional das Apaes (Feapaes). No Paraná, são 42 mil estudantes assistidos em 327 unidades.

A rede paranaense tem uma particularidade: é a única do país a manter convênio com o estado na contratação de professores. Em linhas gerais, pela lei que institui o programa Todos Iguais Pela Educação (n.º 17.656/2013), os educadores são selecionados no mesmo concurso que pontua os professores da rede estadual de ensino, aplicando a exigência de pós-graduação em Educação Especial. “É uma de nossas vitórias. Essa unicidade no ensino, por exemplo, mostra que nossa caminhada não é em vão”, comenta a presidente da Federação das Apaes do Paraná, Neusa Soares de Sá.

Trabalho

Outro ponto favorável lembrado pelo presidente das Apaes de Maringá, Fernando Meneguetti, é a abertura do mercado de trabalho para os deficientes. Com o respaldo da lei, estudantes das associações conseguem um emprego, o que contribui para a inserção deles na sociedade. “Só se vence o preconceito estando em todos os meios e eles estão,” enfatiza Meneguetti, que tem um filho de 29 anos com síndrome de Down. Maringá, inclusive, é sede das duas maiores Apaes do Paraná. Fundadas há cinco décadas, as instituições atendem 1.042 alunos e são divididas em ensino infantil e adulto.

Dificuldades

Embora as conquistas tenham sido valiosas nesses 60 anos, Meneguetti diz que dificuldades continuam surgindo. Como exemplo, ele cita o texto do Plano Nacional de Educação (PNE), que previa que alunos com deficiências fossem introduzidos na rede regular de ensino, com a redução dos repasses federais feitos à entidade. Em suma, isso enfraqueceria a associação , que passaria a prestar educação substitutiva aos estudantes do ensino regular.

“Antes de qualquer mudança, o governo deve entender que não são só nossos alunos que precisam se moldar ao sistema. O professor precisa se adequar, os estudantes precisam se moldar para receber um colega especial. Obrigá-los a esse sistema, os excluiria”, defende.

Em abrigo, cuidados de mãe e companhia

Marcela Campos

Com 1 ano de idade, a paraguaia Gordiana Vilalba teve paralisia cerebral e, aos 9, perdeu a mãe. Nunca conheceu o pai. Com a ausência materna, um tio encaminhou a menina para um abrigo. De instituição em instituição, chegou, há 20 anos, às Casas Lares da Apae Curitiba. Aos 40 anos, mora hoje com outras cinco mulheres e uma mãe social em um dos sete imóveis mantidos pela Apae para pessoas com deficiência intelectual. Os atendidos são encaminhados pela Secretaria da Família e Desenvolvimento Social do Paraná.

“São pessoas que normalmente foram retiradas da convivência familiar por ordem judicial”, explica a assistente social Priscila Lopes de Oliveira, coordenadora das Casas Lares. Dos 37 moradores, apenas três têm parentes com boas condições sociais e financeiras, mas que optaram por pagar mensalidade para mantê-los no abrigo. “Todos os moradores nesse regime estão aqui há mais de 20 anos. Não aceitamos mais esses casos”, afirma. Para cada morador, o governo repassa cerca de R$ 1 mil mensais.

“Eles arrumam a cama, tomam banho sozinhos, dividem o quarto. Por outro lado, não podem sair desacompanhados”, diz Priscila. O papel das mães sociais é administrar medicamentos, fazer a limpeza do local, preparar as refeições e auxiliar na higiene dos moradores. Não é um trabalho fácil. Elas permanecem 24 horas na casa, em jornadas de seis dias de trabalho e quatro, de folga.

Mãe social

Entre elas está Miriam Marchioro Milietti, 68 anos e há 23 na atividade. “Sou viúva e quando comecei este trabalho meus filhos estavam para casar. Uma amiga me falou sobre a atividade e disse que ela não me deixaria ficar triste”, conta. O salário é de aproximadamente R$ 1,2 mil, mais R$ 300 de benefício por assiduidade.

fonte: Gazeta do Povo